Dízimo: sinal de fé, gratidão e pertença

A Igreja no Brasil, durante o mês de novembro, convida os seus fiéis a aprofundarem sua experiência com o dízimo, como expressão de gratidão a Deus, resposta madura de fé e exercício concreto de sinodalidade. Ofertar o dízimo é um ato sagrado de comunhão e participação. O dízimo não é taxa, nem obrigação burocrática, mas um gesto consciente do cristão que reconhece que tudo vem de Deus.

Na Bíblia, dízimo é a décima parte dos bens ofertada a Deus em sinal de agradecimento. Vejamos o que diz o Livro de Malaquias (3,10): “Trazei íntegros os dízimos ao tesouro do Templo, para que haja sustento em meu templo; fazei a prova comigo— diz o Senhor dos exércitos — e vereis como vos abro as comportas do céu e derramo bênçãos sem medida sobre vós”.  A multiplicação dos bens ao longo da nossa vida é sempre um sinal da providência divina. Por isso, o dízimo nasce da confiança, da gratidão e da generosidade.

Nos documentos da Igreja no Brasil, o dízimo é compreendido como “uma contribuição sistemática e periódica dos fiéis, por meio do qual cada comunidade assume, corresponsavelmente, sua sustentação e a da Igreja. Ele pressupõe pessoas evangelizadas e comprometidas com a Evangelização (Doc. 106 da CNBB, n. 6)”.

O que a Igreja faz com o dízimo? 

Conta-se que certa vez, em uma Paróquia da Arquidiocese de Mariana, um jovem aproximou-se do pároco e perguntou:
— Padre, eu preciso ser dizimista?
O sacerdote respondeu com serenidade e firmeza:
— Meu filho, antes de chegar à resposta, permita-me duas perguntas: você sabe onde o dízimo é aplicado? E sabe que o dízimo está na Bíblia?
O jovem, meio sem jeito, confessou que não sabia.
Então o velho pároco enxergou ali uma oportunidade pastoral e explicou:
— O dízimo tem quatro dimensões fundamentais: a religiosa, a caritativa, a eclesial e a missionária. Conhecê-las é essencial, caso contrário você poderá continuar achando — como muitos pensam erroneamente — que o dinheiro do dízimo pertence ao padre. Vou te explicar cada uma das quatro dimensões.

A primeira é a dimensão Religiosa

Ela manifesta o modo como cada fiel expressa sua gratidão a Deus e deposita confiança total na Sua providência. Saiba de uma coisa, caro jovem, o que ofertamos não nos fará falta, porque Deus sempre multiplica os nossos dons.  A Bíblia confirma essa perspectiva. Lá no livro de Tobias (1,6-7) está escrito assim:

“Eu corria a Jerusalém com as primícias dos frutos e dos animais, com os dízimos do rebanho e a primeira lã das ovelhas, e entregava tudo aos sacerdotes, filhos de Aarão, para o culto; o dízimo do trigo e do vinho, do azeite, das romãs, das figueiras e outras árvores frutíferas …”.

Também na Bíblia, especificamente em Levítico (27,30), encontramos a seguinte afirmação:

“Os dízimos do campo, da semeadura e dos frutos pertencem ao Senhor e são sagrados.”

A segunda é a dimensão Caritativa

Caro jovem, a caridade é fruto direto do coração generoso. Graças ao dízimo, a comunidade pode oferecer cestas básicas, remédios, pagamentos emergenciais de água e luz, além de tantas outras ajudas que aliviam o sofrimento dos mais vulneráveis. Recentemente o Papa Leão XIV escreveu a Exortação Apostólica Dilexi te, recordando à Igreja que não se pode separar a fé do amor pelos pobres.

Agora vou te explicar a terceira dimensão, a Eclesial

É a mais visível, ponderou o padre.
— Veja esta luz que ilumina a Igreja: é mantida com o dízimo. O folheto da celebração? Pago pelo dízimo. As flores do altar, as partículas e o vinho para a Missa, a limpeza do templo, as velas, os copos descartáveis do bebedouro, limpeza dos banheiros — tudo isso existe porque alguém ofertou o dízimo.
E continuou:
— Quando você procura o escritório paroquial para marcar batizado, casamento, solicitar documentos ou receber uma orientação, sabe quem atende? A secretária. Ela é funcionária da paróquia. E ali há despesas com impressora, limpeza, internet, materiais de expediente. Tudo isso é custeado com o dízimo.
O jovem escutava com atenção, percebendo a amplitude do que estava por trás daquele gesto simples.

E chegamos à quarta dimensão, a Missionária

A conversa estava rendendo. Neste meio tempo, o coordenador do dízimo, o senhor Joaquim, chegou para uma reunião, ouviu a conversa e completou:
— A dimensão missionária sustenta o seminário, o café das formações e dos encontros que acontecem no salão paroquial, os subsídios pastorais, encontros, retiros, a manutenção dos padres, e as ações evangelizadoras da Igreja.
E o padre acrescentou outra informação pouco conhecida:
– Vocês já ouviram falar dos padres da Arquidiocese que estão em missão na região da Amazônia? O silêncio foi total, indicando o desconhecimento do assunto. E o padre continuou:
– Atualmente temos dois padres na região amazônica. O padre Joel Marselha está em Altamira, no Xingu, estado do Pará; e o padre João Paulo, no estado de Rondônia. A presença deles lá é também um dízimo, pois quem tem mais, partilha com quem tem menos. Graças a Deus em nossa Arquidiocese há muitos padres. Então, alguns partem em missão e recebem, da Igreja que envia, um suporte financeiro. Portanto, com o dízimo anunciamos o Evangelho em terras distantes, sem sair de casa.
Com o rosto transfigurado, o jovem disse:
– Não imaginava que a partilha do dízimo fizesse tantas coisas bonitas, logo eu que achava que o dinheiro arrecado permanecia todo na Paróquia. Vou contar aos meus familiares tudo o que aprendi nesta conversa. Eles nem imaginam que, através do dízimo, ajudamos a formar os leigos, os padres e até a evangelizar em terras distantes. É um verdadeiro milagre.
Para arrematar a conversa, ainda sobre a dimensão missionário do dízimo, o padre, com semblante saudosista, pontuou:
— Quando eu estudava no seminário, rezava sempre pelos dizimistas. Eu sabia que o pão quentinho do café da manhã, os professores, a manutenção da casa e tudo o que tínhamos vinha da generosidade do povo de Deus.

Não é só ela

Crédito: Pascom/Paróquia SantAna em Carandaí.

Para surpresa de todos, enquanto o padre recordava do seu tempo de seminário, aproximou-se dona Marinalva — ministra da Eucaristia, catequista e membro do Apostolado da Oração. Ela disse:
— Padre, eu trabalho tanto nas pastorais…, não estou dispensada de ofertar o meu dízimo?
O sacerdote arregalou os olhos:
— De forma alguma!  Todos os agentes de pastorais e os padres, precisam ser dizimistas. Não estamos dispensados da experiência de fé e comunhão que o dízimo proporciona.
Ela então perguntou:
— E se a pessoa ganha pouco, menos que um salário mínimo?
O jovem, já mais confiante, respondeu:
— Acho que o dízimo não depende do tamanho da renda. Quem ganha pouco ou muito, oferece com fé a quantidade que a sua consciência religiosa indicar.  A entrega do dízimo é sempre um ato de participação e pertença.
O padre sorriu:
— Falou certo, meu jovem. Todos nós precisamos ser dizimistas, inclusive algumas crianças já fazem a experiência do dízimo mirim, como modo de educar as crianças para a partilhar. Certa vez uma criança ofertou um clipe de plástico, todo colorido; ele está no escritório da Paróquia, prendendo as folhas de intenção de Missa. Lembre-se, o dízimo é sinal de fé, gratidão e pertença à comunidade.
Como faço para ofertar o meu dízimo, perguntou o jovem.
O senhor Joaquim, então, tirou da sacola uma ficha e disse ao jovem:
— Faça o seu cadastro, preenchendo está ficha. A seguir, farei um envelope para você, que chegará à sua casa, através dos agentes da Pastoral do dízimo. Se preferir, é possível ofertar o dízimo pelo Pix.
O jovem se surpreendeu:
— Uai, padre! A Igreja está moderna demais… tem até Pix. E o pároco, sorrindo, explicou:

— Não é modernidade, é realidade. Hoje quase ninguém anda com dinheiro na carteira. Ademais, alguns agentes estão atarefados com outros compromissos pastorais, sem tempo para visitar os dizimistas e entregar-lhes o envelope. Mas lembre-se: o dízimo não é só contribuição financeira. A presença nas celebrações e a participação nas pastorais é o que mantém a comunidade viva. Dízimo é pertença e pertença se faz com presença.
Apressado para o próximo compromisso, o padre despediu-se dos três e saiu refletindo:
– Quem não é dizimista, muitas vezes sente um incômodo interior ao ver que tudo na Igreja foi construído sem a sua participação.
Dona Marinalva ainda fez mais uma pergunta ao padre que já ia longe.
– Padre!!! Minha vizinha não é dizimista aqui, mas ajuda mensalmente uma Paróquia lá em São Paulo. É certo ou errado ajudar uma Paróquia de longe?
Já dentro do carro, o padre respondeu:
– Ela pode ajudar a Paróquia em São Paulo, mas o primeiro compromisso dela é aqui, onde ela participa. Aqui também tem evangelização, catequese, os sacramentos e o telhado da Igreja para reformar.
De fato, o dízimo é uma resposta de fé ao Deus que nos ampara e nos fortalece. Se você ainda não faz esta experiência de fé e corresponsabilidade eclesial, a hora é agora. Procure a secretária paroquial ou algum agente do dízimo da sua comunidade e faça o seu cadastro.
Que sejamos uma comunidade corresponsável, viva e missionária, acreditando sempre na multiplicação do pão, que acontece todos os dias na mesa de quem oferta o dízimo.

Texto: Pe. Mauro Lúcio de Carvalho, Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Congonhas.

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