Terminou na última sexta-feira, 24, a 2ª Semana Social realizada pela paróquia São João Batista, em Viçosa (MG). Organizada pela Dimensão Sociopolítica da paróquia, a Semana Social aprofundou temas ligados à Doutrina Social da Igreja como democracia, justiça e liberdade e contou com assessorias do pároco da paróquia São João Batista, padre Geraldo Martins, e de professores e professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Segundo o pároco, a Semana teve como objetivo não só conhecer a Doutrina Social da Igreja, mas também chamar atenção, especialmente dos cristãos, para o compromisso social que nasce do evangelho e da fé cristã. “A Igreja, desde 1891, tem desenvolvido um vasto e profundo pensamento sobre a dignidade humana, o bem comum, o destino universal dos bens, a solidariedade, conhecidos como princípios de sua doutrina social”, explica o pároco.
“As novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil insistem, mais uma vez, na importância de as paróquias oferecerem aos agentes de pastoral uma sólida formação sobre a Doutrina Social da Igreja”, acrescentou padre Geraldo.
Com um público médio de 40 pessoas em cada noite, a Semana teve início no dia 20, no Salão Paroquial Dom Walter Jorge. As pastorais sociais e movimentos populares abriram os trabalhos de cada noite com uma mística sempre voltada para o tema da Semana.
“A Semana foi também uma oportunidade de os participantes conhecerem as pastorais sociais de nossa paróquia através de pequenos vídeos produzidos por elas em colaboração com a Pastoral da Comunicação”, sublinhou o pároco.
Comprometidos com a melhor política
O pároco destacou, na primeira noite da Semana, dia 20, a necessidade da população se reencantar com a política, compreendendo-a como caminho de transformação da sociedade. “Todos fazemos política. Os que afirmam não gostar e não se interessar pela política, acabam fazendo a pior política”, disse.
Lembrando o Papa Francisco, padre Geraldo recordou o conceito da Melhor Política, expressão cunhada pelo Papa na encíclica Fratelli Tutti. “O Papa nos ensina que só é possível construir uma fraternidade universal mediante a melhor política que é a busca do bem comum”, esclareceu. “Por isso, a participação popular é fundamental para não cairmos em populismos que se servem do povo com políticos agindo para satisfazer seus próprios interesses”, acrescentou.
Democracia e soberania
Na segunda noite, dia 21, o professor Paulo Grossi proferiu uma verdadeira aula de história para mostrar como o país precisar avançar para conquistar sua soberania plena.
“A verdadeira soberania nasce da dignidade humana, do bem comum e da opção preferencial pelos pobres. Não há democracia autêntica onde o povo não possui voz e autonomia sobre os seus próprios destinos”, disse o professor, que é diretor estadual do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG).
Grossi destacou também os vários tipos de soberania necessários a um país como a soberania alimentar, energética, financeira e tecnológica. Segundo disse, sem soberania plena “a liberdade política torna-se uma casca vazia”. “A verdadeira democracia exige que o povo controle as riquezas do seu território, garantindo comida no prato, moradia, trabalho e terra para quem nela vive e trabalha”, sublinhou.
Para o professor, o caminho da soberania passa pela conscientização, pela organização, defesa dos bens e projeto nacional que é a “construção ativa de um projeto soberano focado nos mais pobres e vulneráveis”, observou.
Direitos humanos e justiça social
Com larga experiência na luta pelos direitos humanos, a professora Elisabeth Cardoso trouxe a palavra do Papa João XXIII sobre Direitos Humanos a partir da encíclica Pacem in terris. A assessora recordou também a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e questionou os participantes, a partir da realidade atual, se esses direitos são de fato, garantidos para todos, sobretudo, para os pobres.
“Dizer direitos humanos para todos é o mesmo que dizer humanos direitos para todos?”, provocou a professora. Segundo disse, sob a segunda afirmação estão escondidos o preconceito e a desigualdade. Para ela, dizer ‘humanos direitos’ é determinar quem é e quem não é qualificado e que isso é discriminatório.
A presença do racismo no Brasil, de acordo com Cardoso, é uma prova de que os direitos humanos não são garantidos para todos. Lembrou também o crescente número de feminicídio para confirmar a necessidade de trabalhar mais para tornar os direitos humanos uma realidade.
Inteligência Artificial e Reino de Deus
O professor do Departamento de Administração da UFV, Bruno Tavares, destacou, na quarta noite da Semana (23/7), que abordar questões sociais no âmbito da Igreja também é falar do Reino de Deus. E citou o Papa Leão XIV que insiste nesse caminho para a Igreja.
“E quando alguns contestavam que a Igreja não devia desperdiçar energias em questões mundanas, mas preocupar-se em comunicar uma mensagem de vida eterna, ele (Leão XIII) respondia com realismo e sabedoria que O anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos”, disse o professor, citando o Papa Leão XIV em sua encíclica Magnificat Humanitas.
Tavares, que falou sobre “Inteligência Artificial: um desafio para a humanidade”, explicou a complexidade da Inteligência Artificial e suas consequências na vida das pessoas. Segundo esclareceu, o Papa Leão XIV, em sua encíclica, não traz uma palavra fatalista ou catastrófica sobre a Inteligência Artificial, mas faz um alerta para os riscos que ela contém como a desumanização das relações.
“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, protegendo com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que nenhuma máquina jamais poderá substituir em seu esplendor”, disse o professor, citando o Papa.
Uma economia para a vida
A última noite da Semana Social (24/7) contou com a assessoria do professor do Departamento de Economia Rural da UFV, Alair Ferreira de Freitas. Ele contou sua experiência de ter participado do encontro com o Papa Francisco, em 2021, em Assis, para falar da “Economia de Francisco”
Com dados alarmantes sobre desigualdades no mundo, o assessor lembrou o Papa Francisco ao afirmar que é preciso ‘realmar’ a economia. “Não podemos naturalizar a desigualdade, ou seja, achar que é tudo normal”, disse. “O Papa Francisco dizia que a economia que nós vivemos está nos matando, e mata primeiro os mais pobres”, acrescentou.
O assessor mostrou também os números da fome no mundo, apontando que, em 2025, 645 milhões de pessoas sofreram fome no mundo. Recordou que, na África, mais da metade da população está em insegurança alimentar contra 22,9% na América Latina e 8,7% na América do Norte e da Europa. “A fome não é [por] falta de alimento. Ela é produzida socialmente”, disse.
A má distribuição de renda também foi abordada pelo professor. Segundo esclareceu, os 12 bilionários do mundo detêm mais riqueza que a metade da população mundial. “O Papa Francisco dizia que, com nossa economia, estamos produzindo ricos e não riquezas e isso está aumentando cada vez mais com a economia digital”, acrescentou.
Lembrando mais uma vez o Papa Francisco na Fratelli Tutti, o assessor destacou sua contribuição para a conscientização da necessidade de uma outra economia que cuide da Casa Comum e tenha amor preferencial pelos pobres. “Sonhamos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos abriga a todos”, disse.
PASCOM – PSJB