Homilia Pe João Paulo Dias– Novena de São João Batista
23 de junho – Tema: “Amar e servir os pobres: um desafio permanente”
Leituras: Jr 1,4-10; 1Pd 1,8-12; Lc 1,5-17
Queridos irmãos e irmãs, paz e bem!
É com grande alegria que me uno a esta comunidade para celebrar mais um dia da novena de nosso padroeiro, São João Batista. Agradeço sinceramente o convite e a acolhida fraterna. Reunidos nesta noite, somos convidados a contemplar aquele que a tradição cristã reconhece como o Precursor do Messias, a voz que clama no deserto e prepara os caminhos do Senhor.
Neste ano jubilar de fé e esperança, nossa novena é iluminada pela Exortação Apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, que nos convida a redescobrir o coração do Evangelho: o amor de Deus que se torna serviço concreto aos irmãos, especialmente aos mais pobres e vulneráveis. Por isso, o tema que orienta nossa reflexão nesta noite — “Amar e servir os pobres: um desafio permanente” — não é apenas uma proposta pastoral entre tantas outras, mas uma exigência constitutiva da vida cristã.
As leituras que acabamos de ouvir revelam que a experiência da fé autêntica nasce sempre de um encontro pessoal com Deus, transforma profundamente a existência humana e conduz inevitavelmente ao compromisso com a realidade concreta. O Deus da Bíblia não é indiferente ao sofrimento do seu povo. Ele vê, escuta, chama e envia. Por isso, toda vocação genuinamente cristã possui uma dimensão missionária e profética.
Na PRIMEIRA LEITURA, o chamado de Jeremias nos apresenta uma verdade fundamental da nossa fé: a iniciativa é sempre de Deus. “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conhecia; antes que saísses do seio materno, eu te consagrei.” Essas palavras revelam que nossa vida não é fruto do acaso, nem simples consequência das circunstâncias históricas. Somos queridos por Deus, conhecidos por Ele e chamados a participar de sua obra no mundo.
No entanto, Jeremias reage como muitos de nós reagimos diante dos desafios da missão. Ele se sente pequeno, incapaz, despreparado. “Ah, Senhor Deus, eu não sei falar, porque sou muito jovem.” Quantas vezes também nós apresentamos nossas limitações como justificativa para não assumirmos as responsabilidades que a vida e o Evangelho nos colocam diante de nós. Dizemos que não temos tempo, que não sabemos como agir, que os problemas são grandes demais ou que alguém mais preparado deveria assumir essa tarefa.
Mas Deus não escolhe os mais capacitados; Ele capacita aqueles que chama. A resposta divina a Jeremias é também dirigida a cada um de nós: “Não digas: ‘Sou muito jovem’, porque irás aonde eu te enviar.” A vocação cristã não é um privilégio reservado a poucos; é um compromisso assumido por todos aqueles que, pelo batismo, foram inseridos na missão de Cristo. Somos chamados a ser profetas em nosso tempo, isto é, homens e mulheres capazes de discernir os sinais de Deus na história, denunciar as injustiças e anunciar a esperança.
Essa dimensão profética encontra sua expressão mais clara na figura de São João Batista. O EVANGELHO de hoje narra o anúncio de seu nascimento, revelando que sua vida foi inteiramente marcada pela ação de Deus. João não escolheu sua missão; ele a recebeu. Antes mesmo de nascer, foi chamado para preparar os caminhos do Senhor, reconduzir os corações ao essencial e despertar um povo adormecido espiritualmente.
A missão de João Batista continua profundamente atual, porque também nós vivemos tempos de desorientação. O deserto para o qual João dirigia sua voz não era apenas um lugar geográfico; era, sobretudo, uma condição espiritual. E os desertos continuam presentes em nossa sociedade.
Vivemos em uma época marcada por profundas contradições. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas experimentamos uma crescente dificuldade de escutar verdadeiramente uns aos outros. Nunca estivemos tão conectados por meio da tecnologia, mas convivemos com índices alarmantes de solidão, ansiedade e sofrimento emocional. Nunca produzimos tanta riqueza, mas continuamos assistindo ao crescimento da desigualdade, da exclusão e da indiferença.
A cultura contemporânea, fortemente marcada pela lógica do consumo, da eficiência e da produtividade, tende a medir o valor das pessoas pelo que elas possuem, produzem ou aparentam ser. Nesse contexto, aqueles que não correspondem aos critérios do desempenho e do sucesso tornam-se invisíveis. Os pobres, os idosos, os enfermos, as pessoas com deficiência, os desempregados e tantos outros correm o risco de serem tratados como descartáveis.
A Igreja, iluminada pelo Evangelho e pela sua Doutrina Social, denuncia essa lógica desumanizadora. A pobreza não é apenas a ausência de recursos materiais; ela se manifesta também na falta de vínculos, na solidão, na perda do sentido da vida e na impossibilidade de sonhar com um futuro melhor.
Por isso, é necessário ampliar nosso olhar sobre as múltiplas formas de pobreza presentes em nosso cotidiano. São pobres as famílias que lutam para colocar alimento na mesa, mas também os jovens que, mesmo cercados de possibilidades, não conseguem encontrar um propósito para viver. São pobres os idosos abandonados em suas casas ou instituições de acolhimento, esperando uma visita que talvez nunca aconteça. São pobres as mães que criam seus filhos sozinhas, enfrentando jornadas exaustivas de trabalho. São pobres aqueles que enfrentam a dependência química, a depressão, o luto e a desesperança.
Quantas pessoas convivem conosco diariamente e carregam dores invisíveis! Quantos sorrisos escondem sofrimentos profundos! Quantos entram em nossas igrejas buscando não apenas uma resposta religiosa, mas uma experiência de acolhida, escuta e pertença!
É justamente nesse contexto que a reflexão proposta pela Dilexi te se torna tão necessária. O Papa Leão XIV nos recorda que o amor cristão não pode permanecer no plano das intenções ou dos sentimentos abstratos. O amor a Deus se verifica concretamente na maneira como nos relacionamos com os irmãos, especialmente com aqueles que mais sofrem.
Essa convicção percorre toda a tradição bíblica. Os profetas denunciaram vigorosamente uma religiosidade vazia, incapaz de produzir justiça e solidariedade. Jesus retomará essa tradição ao afirmar que tudo o que fazemos aos menores dos seus irmãos é a Ele que fazemos.
A opção preferencial pelos pobres, portanto, não é uma escolha ideológica nem uma estratégia pastoral circunstancial. Ela nasce do próprio coração do Evangelho. O Filho de Deus assumiu a condição humana numa família simples, viveu entre os pobres, aproximou-se dos excluídos e identificou-se com aqueles que sofrem.
Por isso, não pode haver verdadeira celebração da Eucaristia sem compromisso com o outro. Não pode haver autêntica espiritualidade sem responsabilidade social. Não pode haver amor a Deus sem amor concreto aos irmãos.
A tradição cristã sempre compreendeu que existe uma relação inseparável entre o altar e a vida. Santo João Crisóstomo advertia os fiéis de sua época dizendo: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu.” Essas palavras permanecem atuais, porque nos recordam que a fé não pode ficar restrita aos muros da igreja.
O grande risco do nosso tempo é a banalização do sofrimento humano. Acostumamo-nos a passar por pessoas em situação de rua, a ouvir notícias sobre violência e fome, a presenciar injustiças e continuar a vida como se tudo isso fosse inevitável. A indiferença tornou-se uma das enfermidades espirituais mais graves da sociedade contemporânea.
Diante disso, a voz de João Batista continua ecoando em nossos corações. Sua pregação é um convite permanente à conversão. Converter-se não significa apenas abandonar pecados individuais; significa também rever nosso modo de viver, nossos hábitos de consumo, nossas prioridades e nossa relação com os mais vulneráveis.
Preparar os caminhos do Senhor, hoje, significa construir uma cultura do encontro e da fraternidade. Significa recuperar a capacidade de escutar, de acolher e de cuidar. Significa dedicar tempo à família, visitar os enfermos, acompanhar os idosos, apoiar iniciativas solidárias, defender a dignidade humana e promover a justiça.
Talvez não possamos resolver todos os problemas do mundo, mas podemos transformar a realidade daqueles que Deus coloca em nosso caminho. O Reino de Deus cresce por meio de pequenos gestos realizados com amor: uma visita, uma palavra de esperança, uma escuta atenta, uma refeição partilhada, um abraço sincero.
Nesta noite, a Palavra de Deus nos convida a fazer um exame de consciência: quem são os pobres que Deus coloca diante de mim? Quem espera de mim um gesto concreto de solidariedade? De que maneira minha fé tem transformado minha maneira de viver e de me relacionar com os outros?
Que esta novena renove em nós a coragem profética de Jeremias, a esperança anunciada por Pedro e a disposição missionária de São João Batista. Que aprendamos com ele a apontar sempre para Cristo e a reconhecer sua presença nos pobres, nos pequenos e nos esquecidos de nosso tempo.
Que o Precursor do Senhor interceda por esta comunidade e nos ajude a viver uma fé encarnada, comprometida com a justiça, sustentada pela esperança e fecundada pelo amor.
Amém.