Na manhã do dia 05 de novembro, a Arquidiocese de Mariana esteve representada, através do Assessor da Dimensão Sociopolítica da Evangelização, Pe. Marcelo Santiago, no ato em memória aos 10 anos do rompimento da barragem de fundão, ocorrido em 2015.
O ato foi realizado no antigo Bento Rodrigues, às 10h e faz parte da programação da Oitava Romaria das Águas e da terra da Bacia do Rio Doce, a ser realizada, em Mariana (MG), dia 09 de novembro, à luz do tema “Bacia do Rio Doce, nossa ‘Casa Comum” e lema, “10 anos do crime: memória, justiça e esperança”.
O evento iniciou-se na Igreja das Mercês com orações e momentos de falas e de apresentações de quem veio somar à causa, logo, por entre as ruinas do local, a caminhada com o cruzeiro seguiu até a Igreja São Bento, onde houve mais um momento de fala de autoridades religiosas e civis.

Em seguida, o cruzeiro foi erguido e 20 cruzes foram colocadas aos pés dele, representando as 20 vítimas que morreram nessa tragédia, além disso, 200 balões biodegradáveis nas cores vermelho e branco foram soltos contendo nos seus interiores sementes de girassol, para que, ao estourar no ar, as sementes caiam e germinem na terra.
O evento é um sinal de resistência, de esperança, de luta, de justiça e de uma reparação digna para cada ser humano, que teve seu modo de vida singular interrompido bruscamente no distrito de Bento Rodrigues, sendo completamente destruído pela lama de rejeitos e, também, de uma regeneração da natureza, a qual foi devastada pela lama, arrastando tudo o que tinha pela frente, até chegar no estado do Espírito Santo.

Para o Pe. Marcelo Santiago, a Igreja se vê diretamente atingida, tendo perdido igrejas, espaços de reunião e, principalmente, pessoas, que são seu “patrimônio principal”. Contudo, a Igreja assume um compromisso com a vida, defendendo uma economia a serviço das pessoas e não apenas do lucro.
Diante dessa situação, ela exige diálogo com as empresas para que não sejam predatórias, respeitando a soberania popular, pois as populações estavam nos territórios antes da mineração chegar, e não podem ser reféns dela. Além disso, é preciso que o Poder Legislativo crie leis que garantem mais segurança, sustentabilidade e um desenvolvimento integral, que seja ético e beneficie a todos, especialmente os mais pobres.
“É isso que a gente luta, para ter o olhar de esperança, no sentido de avançar em resultados maiores, que beneficie realmente a nossa gente. Então a celebração desse dia é de dor e de resistência, mas ela é de esperança. Nós vamos buscando caminhos de ter uma sociedade realmente mais justa, fraterna, reconciliada, que possa ser inclusiva e possa favorecer o bem de todos. A vida em primeiro lugar”, ressaltou Pe. Marcelo.
O ato contou com a presença dos padres e de diversas pastorais, movimentos e dimensões da Província Eclesiástica de Mariana, movimentos sociais ligados a causa, representantes do governo Federal, Estadual e Municipal, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além do Ministério Público Federal e de Minas Gerais, das Assessorias Técnicas Independentes (ATIs) e, principalmente, dos moradores do antigo Bento Rodrigues, os quais pediam justiça e reparação imediata.
A barragem de fundão, pertencentes as mineradoras Vale, Samarco e BHP Billiton, rompeu no dia 05 de novembro de 2015, colocando na natureza cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minérios. A lama percorreu mais de 600 quilômetros até chegar no Oceano Atlântico, ceifando 20 vidas humanas e degradando a fauna e a flora, afetando ribeirinhos, povos originários, comunidades quilombolas e as cidades que dependiam da água do Rio Doce, sendo considerada a maior tragédia ambiental no brasil.

Gilsa Santos, da Diocese de Governador Valadares, descreve o impacto da tragédia da lama em sua cidade e a luta contínua por justiça.
“Quando a lama chegou em Valadares nos impactou de uma forma inesperada nos quase 300 mil habitantes, e a gente, de repente, ficou sem água potável, foi assustador. Dez anos depois, a gente vê pouco efeito de mudança, por exemplo, hoje não temos uma pesquisa sobre a saúde da população que consome essa água ou que ela tenha um tratamento específico. Ela ainda está sendo consumida pela população, portanto, nós não sabemos o impacto dela sobre a nossa saúde”, destacou Gilsa.
Vindo também da Diocese de Governador Valadares, Pe. Romério da Silva, salientou que a visita a Bento Rodrigues marca uma década de dor e de luta para um povo que ainda não teve seus direitos plenamente ressarcidos.
Para ele, muitas perdas são irreparáveis, como as memórias que se tinham e as vidas ceifadas. Há, também, a tristeza daqueles que faleceram após o rompimento, muitos por “saudade” de seus lares e da vida que construíram.
“No local ainda exibe casas destruídas, servindo como um lembrete vívido da tragédia e estar aqui, em Bento Rodrigues, é fazer memória e lembrar deste tempo terrível. Nós somos chamados a gritar por justiça, justiça pelas pessoas que precisam das nossas vozes unidas, para que possam ecoar e fazer com que os poderes instituídos ouçam estes que foram atingidos, e façam uma justa reparação, além de proclamarmos a esperança”, salientou Pe. Romério.

A moradora do Bento Rodrigues, Simária Caetana Quintão, relembrou o dia da tragédia e o desespero das pessoas pela sobrevivência. Ela descreve aquele como um “momento de terror” e de incredulidade, sentimentos que persistem até hoje.
Ela se emociona com a história e, principalmente, com a repetição, em 2019, quando a barragem da mesma empresa, rompeu em Brumadinho, onde 272 pessoas morreram, além de três vítimas ainda desaparecidas.
“No dia do rompimento foi um momento de terror, de terror mesmo. A gente não sabia o que estava acontecendo. E quando soubemos, a gente não acreditou e não acredita até hoje. Estar aqui, fazendo memória dos 10 anos do crime, é muito importante para não esquecer. Eu falo com o pessoal do Brumadinho que a gente gritou muito, a gente pediu muito para não acontecer em mais lugares e, em 2019, aconteceu lá, de forma muito pior do que aconteceu aqui, e se não descomissionar essas barragens, se não lutarmos juntos, vai acontecer mais”, relembrou Simária.
Wellington Azevedo, representante da Comissão Regional para Ecologia Integral e Mineração da CNBB Leste 2, frisou a resiliência e a fé da comunidade afetada pelo rompimento da barragem, e evidenciou o papel fundamental da Igreja no apoio à manutenção da memória, da cultura e da luta por seus direitos e territórios.
“A gente vem acompanhando essa comunidade, e o que chama muita atenção é a resistência, a persistência e a determinação dos moradores em não deixar perder essa memória. Esse apoio que a igreja dá a esse povo, que, muitas vezes, está desamparado pelo poder público, eles se sentem muito mais fortalecidos. Então essa expressão de fé, com a presença da Igreja ao lado deles, é que dá a coragem de tornar viva a memória daqueles que se foram e dos que estão lutando por justiça”, evidenciou Wellington.
Texto e fotos: Dacom/Arquidiocese de Mariana
