Fé além dos templos: Novena do padroeiro desafia fiéis a combater a “cultura do descarte”

A Paróquia São João Batista, em Viçosa, encerrou na noite desta terça-feira (23) as celebrações de sua novena de 2026. O evento que reuniu centenas de fiéis na véspera do dia do padroeiro, propôs uma reflexão profunda sobre o papel social da Igreja.

Sob o tema “Amar e servir os pobres: um desafio permanente”, inspirado nos parágrafos 103 a 121 da Exortação Apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, os devotos foram convocados a transformar a fé em ações práticas de solidariedade.

Com liturgia preparada pela Comunidade São Francisco, a celebração de encerramento da novena foi presidida pelo padre João Paulo Dias, pároco da Paróquia Santo Antônio, de Juiz de Fora (MG). Concelebraram a missa o pároco local, padre Geraldo Martins, e o padre João Batista Barbosa, vigário paroquial da Paróquia São Sebastião, em Ervália (MG).

Durante a homilia, o padre João Paulo Dias destacou a importância de São João Batista como o “Precursor do Messias”, lembrando que a missão do santo era preparar os caminhos do Senhor, despertando um povo espiritualmente adormecido. O sacerdote contextualizou o chamado bíblico para os dias atuais, associando-o ao jubileu de fé e esperança vivido pela Igreja Católica.

Crítica social e novas pobrezas

O ponto central do sermão foi o alerta contra a “cultura do descarte” na sociedade contemporânea, que tende a tratar tanto as coisas quanto as pessoas como bens descartáveis, que perdem o valor e são rejeitados assim que deixam de ser úteis ou produtivos. O celebrante também apontou as contradições do mundo moderno, onde o excesso de tecnologia e riqueza convive com a solidão e a desigualdade econômica. Segundo ele, o modelo atual mede o valor humano pelo desempenho e pela produtividade, tornando invisíveis os mais vulneráveis.

“A pobreza não é apenas a ausência de recursos materiais; ela se manifesta também na falta de vínculos, na solidão, na perda do sentido da vida e na impossibilidade de sonhar com um futuro melhor”, afirmou o padre João Paulo, defendendo a necessidade de a comunidade ampliar o olhar para outras formas de sofrimento que marcam a vida humana. Ele citou como exemplos os idosos abandonados, os jovens sem propósito de vida, as mães solo em jornadas exaustivas de trabalho e as pessoas que enfrentam a depressão e a dependência química.

O presidente da celebração reforçou que a opção preferencial pelos pobres não deve ser vista como uma bandeira ideológica ou uma estratégia pastoral passageira, explicando que o cuidado com os necessitados é uma exigência que nasce diretamente do Evangelho e do próprio estilo de vida de Jesus Cristo.

Apelo contra a indiferença

A pregação também trouxe um forte apelo contra a apatia social. Citando o antigo teólogo Santo João Crisóstomo, o padre advertiu que a fé não pode ficar restrita aos muros dos templos religiosos. Ele classificou a indiferença diante do sofrimento alheio, como a situação de pessoas em situação de rua e os índices de fome, como uma das doenças espirituais mais graves da atualidade.

Para encerrar as festividades, os fiéis se reuniram no pátio da igreja para o hasteamento do mastro de São João Batista, enquanto se aqueciam próximo da fogueira, assistindo à apresentação da Sirlei do Forró e saboreando as comidas típicas preparadas pelas Comunidades São João Batista e São Geraldo, da Piúna.

Acesse AQUI a homilia do padre João Paulo na integra.

Confira AQUI as fotos do encerramento da novena (Fotógrafo Bruno Alves)

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