“Plantar água para colher vida”: 14ª festa da trabalhadora e do trabalhador rural celebra vida no campo e luta por vida digna

As trabalhadoras e os trabalhadores rurais da Paróquia São João Batista, em Viçosa (MG), realizaram no último domingo (26) a 14ª edição da Festa dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. O encontro aconteceu na Comunidade São Pedro, na zona rural de Duas Barras, reunindo moradores, lideranças comunitárias, movimentos sociais e entidades parceiras para celebrar a vida no campo e fortalecer a luta por justiça social, preservação ambiental e dignidade para as famílias rurais.

Com o tema “Plantar água para colher vida: cuidando da casa comum com amor e justiça” e o lema “Fontes, rios e córregos, bendizei ao Senhor” (Dn 3,77), a festa foi promovida pela Paróquia São João Batista, com apoio do Centro de Tecnologias Alternativas (CTA), Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Escola Nacional de Energia Popular (ENEP), Instituto Socioambiental de Viçosa (ISAVIÇOSA) e Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (NACAB).

A programação começou às 14h, com concentração e caminhada conduzindo a imagem de São Pedro. Animada por Tião Farinhada, a procissão reuniu participantes em cantos e palavras de ordem em defesa da vida no campo. Em seguida, a celebração continuou no campo de futebol próximo à capela da comunidade, onde foi celebrada a missa presidida pelo pároco, padre Geraldo Martins.

Acolhida destaca união e desafios do campo

A recepção dos participantes foi conduzida pelo coordenador da comunidade, Vigilato da Silva, e pela moradora Lívia Ferreira Castro. Ambos destacaram a alegria de receber os visitantes e reforçaram a importância da festa como espaço de valorização da cultura rural e de fortalecimento das comunidades.

Lívia lembrou os desafios enfrentados pelas famílias que vivem na zona rural, especialmente em relação às condições das estradas, e ressaltou que “o campo é sinônimo de trabalho e vida”. Segundo ela, a festa representa um momento de união, amizade e respeito entre as comunidades.

Defesa das nascentes e resistência à mineração

Durante o encontro, representantes das entidades apoiadoras destacaram a importância da preservação ambiental e da organização popular.

Daniel Moreira Neves, do NACAB, afirmou que a celebração fortalece a conscientização sobre os impactos da mineração nas comunidades e nas nascentes. Para ele, a união das famílias agricultoras é essencial para defender a agricultura familiar e garantir direitos.

Mariana Aparecida dos Santos da Silva, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), ressaltou que cabe às comunidades decidir se aceitam ou não a instalação de empreendimentos minerários em seus territórios. “Se continuarmos unidos, eles não virão. Se continuarmos unidos, venceremos”, afirmou.

Indyra Giácomo Monteiro do CTA reforçou que a preservação da água é condição indispensável para a vida. Ela defendeu o cuidado com as nascentes, a produção de alimentos sem agrotóxicos, a valorização do trabalho rural e a implantação de sistemas de coleta de lixo nas comunidades do campo.

Em nome dos trabalhadores e trabalhadoras rurais da paróquia, Ivanilda Aparecida Mafra Valente, da Comunidade dos Nobres, destacou a importância da participação popular nos conselhos e espaços de representação que atuam em defesa das famílias agricultoras.

Representando o ISAVIÇOSA, Braulio Furtado Álvares apresentou uma reflexão sobre a importância das nascentes mineiras para diversos rios brasileiros e alertou para os impactos provocados pela mineração e pelo agronegócio sobre os recursos hídricos. Em sua fala, fez referência à encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, e apresentou práticas de conservação da água, como reflorestamento, captação de água da chuva e construção de barraginhas.

Homilia relaciona Evangelho, cuidado com a criação e compromisso social

Na homilia, padre Geraldo Martins refletiu sobre as parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa, destacando que cada pessoa é chamada a descobrir aquilo que dá verdadeiro sentido à vida.

O sacerdote relacionou o Reino de Deus ao compromisso com a preservação da criação e com a construção da justiça social. Segundo ele, o Reino pode ser encontrado tanto por quem o busca quanto por quem o descobre ao longo da caminhada, exigindo, muitas vezes, renúncias e escolhas conscientes.

O pároco Geraldo também criticou os modelos de produção baseados no uso intensivo de agrotóxicos e hormônios, afirmando que o Reino de Deus se manifesta em tudo aquilo que promove vida, dignidade e direitos humanos.

Inspirado na sabedoria pedida por Salomão, o pároco afirmou que somente a verdadeira sabedoria que vem de Deus permite distinguir o bem do mal, construir a justiça e reconhecer os caminhos que promovem a vida.

Ao abordar o contexto eleitoral, destacou a necessidade de governantes comprometidos com o bem comum, a justiça e a defesa dos mais pobres e excluídos, ressaltando a importância do discernimento e da responsabilidade na escolha dos representantes públicos.

O sacerdote também lembrou as dificuldades enfrentadas pelas famílias rurais, como as más condições das estradas e a precariedade do transporte, e concluiu com um forte apelo à coerência entre fé e compromisso com a vida:

“É mentiroso quem diz que ama Deus e maltrata a natureza; é mentiroso quem diz que ama Deus e não luta pelos direitos humanos; é mentiroso quem diz que ama Deus e não defende a dignidade humana; é mentiroso quem diz que ama Deus, mas não faz de seus bens uma oportunidade de partilha.”

Ao final da celebração, padre Geraldo resumiu o significado do encontro: “Esta festa é sinal do Reino de Deus entre nós.”

Plantio de árvore e partilha encerram celebração

Como gesto simbólico de compromisso com a preservação ambiental, foi plantada uma muda de abacate ao final da missa. Também foi anunciado que a 15ª Festa das Trabalhadoras e dos Trabalhadores Rurais em 2027 será realizada na Comunidade Sagrado Coração de Jesus, em Pau de Cedro.

A programação incluiu ainda apresentação de Congado de um grupo de Porto Firme (MG), além da partilha de mudas, sementes, caldos e quitandas preparados pelas comunidades.

A Paróquia São João Batista agradeceu o empenho de todos os voluntários que contribuíram para a organização da festa, desde a montagem da estrutura até o preparo dos alimentos.

Para Aparecida Damásio, da Comunidade São Sebastião, a celebração deixou uma mensagem de esperança e gratidão:

“O que mais me marcou foi ver tantas pessoas unidas pela fé, valorizando quem trabalha no campo e agradecendo a Deus pelo dom da vida e pelos frutos da terra. Percebi a importância de cuidar da criação, de respeitar a natureza e de reconhecer o trabalho de tantas famílias rurais que, com dedicação, colocam alimento na nossa mesa. Voltei para casa com o coração cheio de gratidão”, afirmou.

Veja AQUI as nossas fotos.

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